Deprima-se

a indústria farmacêutica agradece

Pela manhã pensamos na tarde, durante a semana, sonhamos com o fim de semana, suportamos a vida de cada dia pensando nas férias que vamos tirar dela. Nesse sentido estamos imunizados, contra a realidade, entorpecidos quanto à perda de nossas energias.

— Bolo`Bolo

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Você poderia ser qualquer um, mastigando esses grãos industriais com leite ácido sentado em sua casa ou em pé algum sub-emprego, com a boca aberta (semi-desdentada ou) cheia de dentes esperando a morte chegar. Você poderia ser eu sentado no meu lugar, no meu quarto, na minha sala de aula, no meu ônibus, no meu trabalho, no meu psicólogo (ou psiquiatra) destilando as mesmas depressões, sintomatizando as mesmas doenças que irão encher os bolsos de algum empresário do setor farmacêutico.

Depressão, infelicidade, déficit de atenção, envelhecimento precoce, stress - tudo o que pode ser patologizado brilha como ouro aos olhos desses mercadores da saúde mental e seus remédios de última geração para todo tipo de mal. Nos nossos dias, não há criaturas mais felizes que os acionistas majoritários de grandes empresas farmacêuticas: enquanto o resto do mundo tenta lidar com a depressão diária, comprando seus produtos, os donos destas empresas chafurdam no mais sujo lucro que o mercado acionário pode propiciar.

Neste mundo de tanta eficiência ainda há espaço para gurus debilóides que afirmam poder calcular o custo de suas ações com base no tempo em que estas lhe tomam. "Time is money, Life for exchange", apesar desse tipo de diarréia mercantil ter sido naturalizado e internalizado, ninguém considera a possibilidade desta ser a verdadeira doença da qual só estamos medicando os sintomas. Pequenas alegrias medicalizadas estão disponíveis a preços nem sempre módicos, nas estantes das farmácias e das drogarias.

São poucos os que conseguem perceber os vínculos entre a cultura da 'eficiência', da 'máxima qualidade' e da 'optimização do tempo' com os chamados males do espírito. Os cremes faciais alardeados na televisão não são realmente frutos de um desejo de eterna juventude, mas resultam da sensação de que nunca tivemos uma juventude verdadeira pois passamos toda essa fase nos preparando, estudando, trabalhando, envelhecendo precocemente para nos tornarmos eficientes. Os cremes são a nova chance de ter a segunda chance, mesmo que saibamos secretamente que, caso a tivéssemos, a desperdiçaríamos novamente.

Quando nossos antepassados não passavam bandos vivendo em florestas, savanas ou desertos, a avareza era provavelmente considerada um 'mal do espírito' e o próprio tempo era um 'tempo livre'. Milênios depois, espera-se que eu e você, humanos pós-revolução industrial nada mais sejamos que criaturas obcecadas pela posse, se apoderando dos recursos naturais disponíveis, tratando tanto a natureza como o próprio tempo como vetores da máquina. Curiosamente a mesma máquina que para o seu bom funcionamento controla nossa 'natureza' e toma boa parte do nosso tempo.

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Há apenas 80 anos, remédio era sinônimo de aspirina e a idéia de tomar aspirina era tratada pelas classes baixas mesmo de países ricos como algo degradante. Mas, hoje, medicação é parte integrante da vida de muitos de nós. O Remédio enquanto forma de cura deu lugar ao remédio enquanto meio de sobrevivência - diante de uma vida estúpida e cheia de lacunas, como peça (ativa ou sobressalente) do mercado de trabalho. Viver anestesiado é um pré-requisito para se viver pacificamente, afinal de contas finalmente tornou-se possível se chapar a um ponto de não mais ter que vivenciar esta sórdida realidade circundante, sem sentir dores.

E nada mais passível de controle que uma nação de depressivos em busca da cura, um exército de pessoas cheio de culpa e frustração internalizadas, suscetível a todo tipo de trapaça inventada por doutos, ordenadas sob a égide das mais modernas terapias. Atualmente, todo café da manhã dos campeões que se preze deve incluir uma quantidade razoável de comprimidos e pílulas, formas de anestesiar corpos e mentes diante de uma realidade cada vez mais deprimente da sociedade de mercado.

Estaremos nós condenados a escolher entre a sensação da ordem lastimável deste sistema e o niilismo da pax medicalizada? Começo a pensar se a sintomatização deste tipo de doença talvez seja proporcional ao nível de inconsciência e internalização de toda merda circundante. Se esse for o caso, a consciência e a externalização podem ser o primeiro passo para a cura deste mal que é o sistema. E está mais que na hora de controlarmos essa pandemia.

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