Bancar o Louco não é a melhor Estratégia
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Certas pessoas que ao chegarem à conclusão de que o mundo as incomoda, resolvem retrucar o incômodo com um incômodo maior ainda. A idéia não seria ruim se soubessem canalizar seus esforços para o lado certo.
Em certos contextos a liberação do incomodo, em forma de revolta e raiva é o melhor a ser feito. Mas para a maior parte destas pessoas, bancar o louco e rodar a baiana não chega a ser uma tática, é sim um estilo de vida - algo a ser anexado à própria identidade, que quando acionado é descarregado, o resultado é leveza e soltura em seu 'eu' intrinceco, quem está ao seu redor é quem geralmente aguenta o repuxo. Mas… diante de tamanho beneficio o que importa as vítimas da rodada?!

Como metralhadoras giratórias com problemas no tripé, este tipo faze vítimas de uma forma indiscriminada. Mas sempre existe algum lugar onde se esconder - atrás de um bem medido espontaneísmo, as vezes até mesmo considerado por quem o aciona, como algo subversivo. Esta forma de "auto-descontrole" se tornou muito comum em uma série de movimentos contra-culturais do século XX, e provavelmente foi o motivo de sua assimilação e ruína. É aqui que começamos uma breve arqueologia do descontrole esvaziado no mundo do espetáculo.

Não é novidade que o espetáculo distorce a vida: quem não lembra de Juventude Transviada, o filme de 1955 onde um certo James Dean interpretava um estetizado "rebelde (aparentemente) sem causa", um protótipo ideal de beatnick esvaziado de todo seu conteúdo político e poética, reduzido a uma espécie de galã juvenil em num mundo que nada mais era que uma versão mais que perfeita do sonho americano. Descontrolado e sedutor, Jim Stark (o personagem interpretado por Jean) era a armadilha perfeita para o público jovem da década de 50, jaquetas de couro, máquinas possantes, gel no cabelo e vestidos rodados venderiam como água dali para frente. E a vida reflete o espetáculo: beatnicks descontrolados e esvaziados como Stark passaram a se arrastar pelo pelo mundo, desde então, isso impressionava as garotas, e decretava o fim de um movimento.

E não parou por aí, dos hippies aos punks, todos tiveram, ambas as modalidades da contracultura recente tornaram-se estereótipos variantes deste mesmo descontrole. A conveniência é a mãe da fast fode, com um moicano na cabeça e uma jaca de rebites inbecis adoradores do caos…

o descontrole aparentemente espontâneo vem vendendo um bocado desde então. Além de ser uma forma excelente maneira de combater o tédio e exercitar o niilismo. O mercado do rock pesado está cheio disso (vide o imbecil na foto acima, ele é só mais um pseudo-enlouquecido telespectador que pagou 50 dólares para rolar na merda no festival do Ozzy). Não é para menos, desde que os espetaculares descobriram que comer morcegos e explodir porcos, bater em fotógrafos e quebrar guitarras e hotéis aumenta a venda das camisetas e discos, seus fãs tinham que se sentir consumindo esta nova atitude.

Nossa "civilização" é certamente campeã em subculturas que julgam resolver os problemas do mundo com alguma artimanha ridícula que levam a sério. Os vegetarianos, os vegans, os naturebas, os hare krischna, os maconheiros, os moradores de rua por opção, os primitivistas nômades, os quakers, os monolitas, enfim, uma cambada de gente que acha que pode resolver o mundo baseando-se em algum princípio simples que os torne diferente de todos, como não comer carne, rezar com a benga, usar drogas naturais, fugir de casa, caçar comida no mato ou mesmo plantar utilizando técnicas pré-históricas.

A verdade é que o que estas pessoas estão fazendo é nada mais nada menos do que se fingir de louco, criando uma vida imaginária que soluciona todos os problemas e acreditando (e forçando outros a acreditar também) que dessa forma sua vida está solucionada. O fato é que não solucionam nada. Pode até ser que os maconheiros vivam melhor que não-maconheiros, mas é só escapismo. Pode até ser que os quakers e monolitas tenha uma vida mais digna, mas só estão se afundando em seu poço de loucura.

Convenhamos, caro leitor, o que todos estes conseguiram foi criar um sistema de piadas que toda civilização conhece. Assim, a civilização ocidental está acostumada já a associar qualquer idéia contemporânea de criação de uma nova cultura a alguma dessas piadas. Uma Z.A. é associada aos quakers ou monolitas, e vira piada. Pessoas saudáveis são associadas aos vegans e vegetarianos (que por sinal não são saudáveis), e viram piada. Pessoas felizes são associadas aos hare krischna ou aos maconheiros, e viram piada. Ao final, toda alternativa se torna um clichê aos olhos alheios, graças a todos estes que se fazem de salame pra não virar adubo. Todos se perguntam: "Ora, se vocês vão fazer uma comunidade natureba e longe das grandes cidades então vocês são quakers vegetarianos. [ piada ]"

Assim, devemos lembrar a todos que querem compor este coletivo que, embora você possa ser vegetariano, isso não faz parte da ideologia do protopia e que seu hábito alimentar será respeitado, mas que você poderá apanhar quando quiser fazer algum sermão a respeito da superioridade vegetariana. Você pode fumar maconha, mas não espere que todos batam palmas quando você resolver plantar algumas mudas. Você pode achar altamente agradável plantar utilizando somente as mãos, mas saiba que provavelmente isso não sustentará você. Você poderá dormir ao relento diariamente, mas não queira que todos os demais façam o mesmo porque você acredita que isso é bom.

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